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quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Caçador e a Caipora


Existe uma lenda muito antiga dos sertões brasileiros a respeito de um ser (ou entidade) protetor da fauna: a Caipora. Segundo a lenda é um ser pequeno, de cor escura e dentes afiados, sempre montado em um porco selvagem e empunhando um chicote de couro cru com o qual costuma castigar os caçadores ou seus cães de caça. Foi em meio a essas histórias que um antigo colega de trabalho por nome José cresceu no sertão baiano...
Depois de quase vinte anos sem tirar férias, José já bem estressado com a profissão de motorista de coletivo, resolveu viajar e rever a terra onde nasceu. Após alguns dias visitando parentes e amigos, bebendo muita cachaça e comendo muita “buchada” e “galinhada”, José foi convidado por alguns amigos para uma caçada... Seria nas matas ali próximas, matas que José conhecia muito bem, pois crescera na região. Após os preparativos, espingarda e cartuchos carregados, e os cães perdigueiros devidamente “trelados”, receberam um aviso de um tio seu já bem idoso e que passara toda sua existência naquela região:
- Estão levando fumo para a Caipora? Se não levarem vocês não vão pegar nada e ainda por cima correm o risco de toparem com ela...
- Que é isso tio, essas coisas não existem! Isso é história que pai e mãe escutavam do vovô e contavam pra assustar a gente... – retrucou José.
- Quem avisa amigo é... - respondeu o velho.
Ao entardecer daquele dia partiram para as matas com tal destemor que vejam só... não levaram o “fumo da caipora”... Após algumas horas de caminhada sem topar com caça alguma os cachorros começaram a ladrar, soltaram os mesmos que desembestaram mata adentro atrás da caça tão almejada. José e os amigos corriam feito doidos tentando alcançar os cães.
- Será que é caça grande? - perguntou José.
- Pelos latidos dos cães deve ser cateto (porco do mato). – respondeu o amigo.
Passados alguns minutos, escutaram os cães darem o sinal de acuação e logo em seguida os mesmos ganirem alto e dolorido... Chegaram próximo e os cães correram para perto dos caçadores com o rabo entre as pernas... Ao examinarem os cães, notaram marcas de chibata no dorso dos mesmos.
- Isso é coisa da Caipora! – exclamou um dos amigos.
- Que caipora que nada, isso é coisa de gente que não tem o que fazer... chumbo neles! – gritou José atirando à esmo em direção da mata.
Após os disparos um tétrico silêncio tomou a mata e os cães ficaram mais inquietos ainda, sombras eram vistas passando entre as árvores, mais disparos foram feitos sem resultado, então decidiram voltar... Perderam-se... Amanheceram o dia sendo perseguidos pelas sombras que volta e meia lançavam uma chibatada nos cães. Com o sol já alto conseguiram achar a trilha de volta, e concluíram que rodaram em círculos a noite toda quando a trilha estava bem próxima de onde estavam. Ao chegarem, o velho tio examinou os cães, sorriu cinicamente e retrucou:
- Na próxima caçada não esqueçam de levar o fumo...

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